terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A especulação imobiliária e o Pinheirinho.

Auschwitz Pinheirinho Foto : Renato Jakitas/G1



O que aflorou com toda a sua crueza, em SJCampos de Concentração, foi uma questão que mais dia, menos dia, ia explodir. Os imóveis desta cidade sofreram uma valorização dramática nos últimos anos, especificamente nos últimos dois.
Ora, isso pressiona os preços dos aluguéis: o proprietário passa a exigir um aluguel de acordo com o preço do seu imóvel. Se o imóvel valoriza, o dono passa a pedir mais alto pelo seu aluguel. Se o locatário não pode pagar, o locador pede o imóvel e prefere até mantê-lo fechado, aguardando alguém que possa pagar o valor "de mercado". O antigo locatário, já no limite de suas possibilidades, sai desesperadamente a procura de um imóvel dentro das suas possibilidades. Se não estiver morando em um imóvel dos mais simples e baratos, ainda pode ir para um pior, pagando o mesmo que pagava antes. Mas se já estiver morando nos mais baratos, não terá para onde ir pois estes ficaram inacessíveis para ele.
Para onde ele irá? Ele se inscreve na fila para comprar imóvel popular, subsidiado, mais barato e enquanto a fila não anda, ele tem de ir para algum lugar. Fica sabendo do Pinheirinho, vai lá e é acolhido. Muda-se para lá com o que tem e continua a esperar pacientemente a fila andar. Mas esta não anda, ou melhor, anda para traz: aumenta cada vez mais. Reza para que esqueçam dele e o deixem viver em paz.
Mas ai aparece um dono, devedor contumaz de impostos, mas riquíssimo, poderoso. Dono de uma empresa que se estabeleceu em SJCampos de Concentração, nunca contratou ninguém e faliu sem nunca ter produzido nada. Mas quer o terreno. A prefeitura, que nunca o molestou cobrando os impostos devidos, que rechaça qualquer dialogo para declarar a área inutilizada de interesse social, acha bonito, toma-lhe o lado e apóia-o. O governo federal aparece com uma solução a custo zero para a prefeitura: ela mudaria o zoneamento do local, o governo federal compraria a gleba ( o "dono" aceita negociar), e faria um projeto Habitacional pelo programa Minha Casa, Minha Vida para o pessoal cadastrado. O governo do estado topa este acordo.
Mas o que faz o facistóide do alcaide Joseense? Não comparece a reunião na OAB, com os representantes do estado, da união, mais os advogados dos sem teto e representante da igreja. Mesmo procurado na prefeitura, não recebe estes negociadores, coloca o seu secretário de "assistência e desenvolvimento social" (seria patético se não fosse trágico dizer que em SJCampos de Concentração há uma secretária dessas), que recusa-se, em nome das prefeitura, a assinar o protocolo de intenções que abriria as negociações (conforme descrito acima) e sustaria a ação de despejo. Mostram a sua intenção de haver o despejo, a sua crueldade e arrogância (e para mim, também a sua burrice cavalar).
O resto, voces estão vendo: viramos a cidade dos campos de concentração de gente despejada, onde falta tudo: agua, colchões, comida, espaço. Nem falo de esperança; o que desta resta a estas pessoas que foram despejadas a bombas de gaz lacrimogênio? Eu pergunto: é crime buscar um lugar para se morar? É crime furar uma fila que não anda a anos? É crime área não utilizada e devedora de impostos? Eu acho que tenho a resposta: em SJCampos de Concentração é crime ser pobre!

***Francisco Conde é pesquisador do INPE e cidadão indignado de SJCampos de Concentração.

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